DRU

Em Ceres, a sexualidade não é segredo.

Não importa quem você ama, quem deseja ou com quem escolhe estar. Mãe Ceres não administra a intimidade dos seus filhos. Em Ceres, existe função. Você trabalha. Você estuda. Você contribui. Você participa da continuidade da sociedade. E o que você faz com o seu tempo livre é, em grande parte, problema seu.

Por isso, no universo de Ceres, o romance de Dru com Theo e sua relação com Ana não são uma rebelião. Não são um manifesto. Não são um segredo. São simplesmente parte da vida dela.

Dru quer ser amada. Quer corresponder ao amor. Quer rir, se maquiar, fazer perfumes, negociar fitas, colecionar moedas e quinquilharias, correr pelo trigo e viver seus pequenos momentos de felicidade.

Mas existe algo que pode ser muito mais perigoso em Ceres do que sexo: o comércio.

Porque sexo pertence ao indivíduo. Comércio cria relações entre indivíduos. Mercadorias circulam. Informações circulam. Objetos circulam. Desejos circulam. E, quando algo começa a circular, Ceres precisa saber até onde aquilo pode chegar.

Dru é comerciante. E talvez nem perceba o quanto isso a torna mais perigosa do que sua própria sexualidade.

O que ninguém nota, porque ela nunca deixa que notem

Dru é a corretora informal de tudo dentro do colégio — objetos, fitas, moedas, segredos, corpos. Isso não a torna calculista ou fria; torna-a a pessoa mais conectada a todo mundo, e por isso mesmo a mais vigiada sem saber. Ela não constrói rede por ambição de poder — constrói porque é assim que ela ama o mundo: trocando, oferecendo, criando pequenos elos que a fazem sentir parte de algo maior do que a função que lhe foi designada.

Com Theo, ela vive o único tipo de amor que o livro trata com dignidade plena e sem cálculo: mesmo sabendo que ele "pertence" a outra força, mesmo vendo seus olhos deixarem de ser dela — "agora pertencem a ela" — Dru aceita perder sem competir. Não é resignação vazia. É ética própria, rara dentro de um mundo que trata afeto como recurso ou função. Com Ana, é diferente: prazer sem exigência, corpo sem promessa, trocado quase como as próprias mercadorias que ela negocia — batom, perfume, um momento sem risco de decepção.

E então, no seu próprio pequeno gesto de arte, ela cria um perfume com o cheiro da Mãe Ceres — talvez a coisa mais pessoal que ela já fez, transformando devoção institucional em objeto íntimo, algo que se pode carregar no corpo, guardar, sentir de perto. É o tipo de ato que só faz sentido vindo dela: pegar o que é grandioso e distante (a Mãe, o sistema, o mármore negro) e reduzir a algo pequeno, cheiroso, tocável — hors de função, apenas por amor à própria criação.

É esse gesto, ironicamente, que sela seu destino. O sistema não pune Dru por amar quem ama, nem por vender pequenas coisas no mercado paralelo do colégio — pune-a por ter talento demais pra ser ignorado. O perfume que nasceu de afeto pessoal é absorvido, formalizado, transformado em profissão oficial. Dru vira boticária. O gesto mais livre que ela teve — criar algo só porque sentiu vontade — é engolido pela mesma máquina que "alimenta, educa e devora" tudo que toca.

Dru não possui liberdade.

Mas ela flerta com ela. Nos perfumes, nas fitas, nas moedas trocadas por prazer de trocar, no amor que ela dá sem cobrar de volta. E, de alguma maneira, produz pequenos pedaços dela — mesmo sabendo, no fundo, que o mundo de chumbo em que vive vai, cedo ou tarde, encontrar um jeito de reivindicar de volta cada fragmento de liberdade que ela conseguiu criar com as próprias mãos.

Vídeo - Dru: Perfume de Chumbo

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