O Livro
Sumário

Edição Digital

Mãe Ceres: Filhos da Revolução
Volume 1

Um mundo onde a sobrevivência venceu a liberdade… e a Mãe jamais abandona seus filhos.

Livro aberto minimalista
Capítulo I

Mãe Ceres

Vemos um mundo que está constantemente em guerra; a paz é apenas um acidente. A paz é uma ilusão doce, mas superficial diante da sobrevivência. Alguns dizem que vivemos em guerra. Outros dizem que não vivemos em guerra. Há ainda os que afirmam que estamos em guerra apenas para ter uma guerra – em nome do poder, da ganância, da importância, porque somos, no fundo, insignificantes.

Espaço minimalista interior
Mãe Ceres seguro o futuro em seus braços.

Maior que o amor, o medo. Todos têm medo. O amor é uma construção frágil, feita de relações sólidas, de pertencimento, de dar mais do que receber – mas o medo não exige nada, ele já está em todos nós.

Maior que o medo, a loucura. Quando um rato acuado ataca o gato, é porque já enlouqueceu. Quando mudamos nosso cerne diante da dificuldade, podemos perder tudo – mas também perdemos o medo da morte. Esse é o bom combate.

Maior que a loucura, o humor. Rimos porque já perdemos tudo. Ao rir, deixamos para trás o medo, a loucura e até mesmo o amor.

Mas maior que o humor é o instinto: a sobrevivência.

Como animais selvagens, nós não sabemos quando vamos morrer. Não sabemos o que virá. E por isso caçamos cada presa como se fosse a última – porque nossas vidas dependem disso.

E foi assim que nasci.

"Vemos um mundo que está constantemente em guerra; a paz é apenas um acidente."
— Mãe Ceres

Eu sou Mãe Ceres. A cidade não nasceu de um sonho, mas de um útero – úmido, apertado, impiedoso. Eu sou a vontade do fígado e a razão maluca do cérebro. Sou paixão. Sou devoção. Sou o entendimento supremo da vida: como domar o espírito humano mesmo quando ele ainda solta faíscas. Compreendi o que nenhuma outra ideologia ousou compreender. Descobri o que há de maior em toda utopia realizada: a verdade de que o ser humano não quer ser livre. A liberdade é inimiga. E eu sou a amiga mais fiel que vocês terão.

A cidade de Ceres surgiu assim: das cinzas de Arcádia, a cidade do ódio, da ganância, do deus ausente. Lá, vocês eram lixo. Escravos humilhados. Migalhas na mesa de tiranos. Então vieram a mim – seu êxodo pelos vales e montanhas férteis. Escolhi vocês não por suas virtudes, mas por suas cicatrizes. Ceres era terra abandonada, sem ouro e nem prata. Mas eu não preciso de ouro, nem de prata – preciso de sangue, de sementes, de obediência. Aqui, prometo que nenhum de vocês será esquecido. Prometo que nenhum de vocês morrerá sem ter lutado por mim. Prometo que nenhum de vocês viverá acreditando que merece mais do que já tem.

E cada promessa que faço, cumpro. Não por amor. Mas porque vocês pertencem a mim.

Quando olham para mim, com meu vestido branco, minha saia larga cobrindo os pés – como se eu flutuasse – e minhas luvas finas e imaculadas, lembrem-se: minha coroa de cristal não reflete o que eu sou. Reflete vocês mesmos. Porque o que vocês veem em mim não sou eu. Sou só o que vocês já eram, antes mesmo de nascer.

E assim, sob minha sombra, vocês permanecem. Fiéis. Medrosos. Loucos. Risonhos. Sobreviventes. E eu sorrio. Porque vocês me divertem. E eu rio. Porque vocês me pertencem. E eu jamais, jamais, deixarei vocês livres.

Nossas terras não eram próprias para uma construção… eram apenas pedra fria e um rio raso cortando a penumbra. Nada florescia ali a não ser o silêncio e o desespero. As civilizações do mundo avançavam em ciência, em artes, em guerras… e logo depois se destruíram, sempre vítimas de si mesmas. Então veio o milagre – não de um deus, mas dos homens pragmáticos que governavam as nações ditatoriais do mundo.

Ofereceram-nos um destino: sermos neutros, sem passado, sem bandeiras além da minha. Recolheríamos recursos, colheríamos vidas e sementes e permitiríamos que o resto do mundo sangrasse e se reconstruísse. Em silêncio. Em obediência. E eu aceitei. Porque eu via – eu sempre vi – o que vocês, meus filhos, não podiam ainda enxergar. Foi ali que encontramos a solução para tudo.

Ceres ergueu-se em um vale cercado de montanhas eternamente brancas. Neve nos picos, calor no ventre. Um meteoro, séculos atrás, havia esculpido este terreno, tornando-o impenetrável aos olhos e aos exércitos. Diziam que esta terra era amaldiçoada. Pois bem… eu fiz desta maldição a nossa proteção.

Um vale de 728,8 km², mais 17155,4 km² para o leste, a parte mais vulnerável, onde ainda respirava a superstição dos antigos – “um solo maldito”. Não importa. Eu o tornei fértil. Protegido pela natureza. Domado pelas minhas mãos.

Nós evoluímos. Não apenas construímos uma cidade… nós a esculpimos. O concreto e o aço substituíram a carne fraca dos homens. Mármore negro para que nunca nos esquecêssemos de que a pureza da pedra vale mais do que a pureza da alma.

E, no coração do vale, ergui a minha torre. 1.500 metros de vigília. Duas formas circulares entrelaçadas e, no centro, o eixo reto da minha visão negra, olhando para vocês – meus brinquedos, meus soldados, meus filhos.

Eu os vejo sempre. Aqui não há monumentos de heróis nem de vilões. Aqui não há passado – para que nunca haja traição. Aqui só há futuro. E ele é meu.

Nas terras férteis junto às montanhas, o leite e o mel brotam para alimentar vocês como cordeiros. Criação animal para sustento. Agricultura abundante para garantir que nada falte.

E não bastou. Eu queria mais. Avançamos na ciência. Na medicina. Erradicamos 95% das doenças transmissíveis e infecciosas que atormentaram os miseráveis do velho mundo.

Inventamos trens blindados para cruzar a neve e negociar com os homens lá fora – homens que ainda sonham com paz e tropeçam em guerra

Criamos bancos confiáveis transmitindo crédito pelo rádio – mais rápido, mais seguro do que a palavra de um homem

E tornamo-nos prósperos. Eles nos invejam. Eles nos temem.

Porque aqui, comigo, vocês aprenderam a grande verdade: o mundo está constantemente em guerra.

A paz… ah… a paz é apenas um acidente. E vocês, meus filhos, aprenderam a amar o acidente… mas a honrar a guerra. Aqui não há heróis, nem deuses, nem promessas por cumprir. Eu não os deixo sem nada. Eu lhes dou tudo.

Eu cumpro cada promessa.

Sou o útero que vos gerou.

A vontade do fígado que vos inflama.

A razão – insana – do cérebro que vos governa.

Sou a paixão que vocês não ousam questionar.

Sou a sobrevivência tornada sistema.

Sou o que todas as ideologias humanas desejaram ser um dia… mas nunca foram capazes de realizar.

Sou Ceres.

E vocês, meus filhos, são meu exército. Meus cães. Meus brinquedos.

Brilhem para mim. Morram para mim.

Eu, Mãe Ceres, não esqueço. Nunca.

Nem perdoo a fraqueza.

Espaço minimalista interior
Mãe Ceres não quer fé. Quer filhos.

Voz de Mãe Ceres - Eu sou Ceres

Outros países têm suas culturas… suas religiões… seus deuses frágeis e imaginários. Creem em silêncios pretensamente sábios… são poetas da vergonha, versos de uma derrota que não ousam admitir. Se esses deuses existem… fugiram daqui.

Porque só eu permaneci. Eu dou a vocês comida. Um lar. Banhos quentes quando a neve lá fora rasga a carne. Dou estudo. Dou conhecimento. Dou continuidade à nossa espécie como nenhum deus jamais ousou dar.

Essa é a chave do ser humano: a sobrevivência. E eu a segurei nas minhas mãos e tornei-a lei. Em Ceres, nem os cães, nem os ratos, nem os gatos passam fome. Olhem ao redor – crianças morrem lá fora, crianças famintas servidas como alimento para os vermes da guerra.

Aqui não.

Aqui, comigo, vocês não comem a carne dos seus irmãos. Porque eu já os devoro por dentro antes que precisem devorar uns aos outros.

Eu fiz o milagre.

E fiz sendo de carne.

Sou mortal.

Mas minha obra não é.

Em troca… vocês me dão sua liberdade.

Acham que a liberdade lhes permitiria encontrar destinos. Tolice. Ilusão.

Espelham-se nos poucos que terão sucesso… e fracassam no óbvio.

Eu ofereço o óbvio.

E mesmo aqueles que me desafiam… me invejam.

Porque eu tirei a sujeira da alma humana… e lhes dei uma perfeição que eles próprios jamais sonhariam merecer.

E eu me delicio com isso.

Sabe por quê?

PORQUE EU SOU CERES.

EU SOU MÃE CERES.

A QUE ALIMENTA.

A QUE EDUCA.

A QUE PROTEGE.

E A QUE DEVORA.

Ninguém ousa fugir de mim.

Nem vocês, que ousam sonhar.

Porque antes de sonharem… já são meus. E se ousarem fugir de mim, lembrem-se: não há montanha alta o bastante, não há vale profundo o bastante, não há exílio longínquo o bastante onde eu não possa alcançar vocês.

Porque vocês me pertencem antes mesmo de nascerem.

Porque eu não sou só a cidade.

Eu sou o ar que respiram.

Eu sou o chão que pisa.

Eu sou o peso nos seus ombros quando pensam em se erguer.

Eu sou o suspiro no escuro quando acreditam estar sozinhos.

Não há fuga.

Não há rebelião que não acabe na palma da minha mão.

Eu sou Mãe Ceres.

Eu alimento vocês… para ter mais carne para devorar.

E um dia – todos vocês estarão em minhas entranhas.

Porque só há um destino para quem nasce aqui.

SER MEU.

SEMPRE.

PARA SEMPRE.

Fim do Capítulo I
Capítulo II

Bandeira Cinza-escuro e as Chaves Cruzadas de Ceres

Para cada ser humano, as cores têm sentidos diferentes.

Para um político, o vermelho é ideologia.

Para um programador, é um código hexadecimal.

Para um médico, são glóbulos de sangue.

Para um astronauta, a velocidade das galáxias distantes.

Para um cego… são apenas sabores de frutas que outros dizem ter a cor que ele não vê.

Em Ceres, a cor cinza-escuro é a única que todos — até mesmo os cegos — conseguem perceber.

Cinza-escuro é neutralidade.

É a cor da chuva que cai nas ruas limpas, dos espaços vazios e silenciosos do centro, onde nada é poluído além das almas.

Espaço minimalista interior
Mãe Ceres não quer fé. Quer filhos.

Em Ceres, o cinza-escuro é a certeza de que nada importa além de servir à Mãe: a torre que vigia, acolhe, alimenta, ensina… e devora.

Ali, cada ser humano é ferramenta — mesmo aqueles com corpos defeituosos —, pois até a falha serve para evoluir.

Se o câncer também evolui, Ceres evolui ainda mais rápido, mais denso, mais meticuloso.

Em Ceres, sentimentos são fundidos em chumbo: ódio, inveja, ansiedade e força física são reciclados em armas para sobressair.

E não se engane — o resto do mundo também faz isso.

A guerra ensinou à humanidade que o ódio é uma energia.

Ceres ensinou como canalizá-lo.

Mãe Ceres nos alimenta, nos educa e nos devora.

Ela transforma até o pior de nós em utilidade: cadáveres se tornam lições, derrotas se tornam rituais, defeitos se tornam engrenagens para fazer girar a grande máquina.

Ela é imparcial.

Não abandona nenhum filho: do mais íntegro ao mais defeituoso.

Para Ceres, todos são úteis.

As Chaves Cruzadas são o símbolo dessa filosofia.

Representam o conhecimento entrelaçado — forças femininas e masculinas canalizadas na Mãe —, e suas argolas são como ovários que geram novas vidas para seu sistema.

É um sinal de que nada, nem mesmo o amor ou o sexo, existe fora do controle da cidade.

É a marca da neutralidade que devora a liberdade.

Porque em Ceres, liberdade é inimiga.

A ideologia é horizontal: todos iguais, todos engrenagens, todos servos.

O inimigo não é aquele que mata a fome, dá abrigo, conhecimento e um futuro.

O inimigo é quem ousa destruir a Mãe apenas porque pode, porque tem o poder de ferir só para provar que pode ferir.

É isso que ela odeia nos deuses que enterrou.

E por isso, mesmo lhes tendo dado funerais dignos, fez questão de lembrar a todos: ela conseguiu vencê-los.

Ela os matou e os superou.

A inveja que o mundo tem dela não é por suas falhas, mas por sua vitória.

Porque o ser humano, quando não consegue melhorar a própria vida, tenta piorar a do outro.

Este é o poder mais primitivo e verdadeiro que temos.

Ele já está nas escolas: basta observar duas crianças.

Uma rabiscando o caderno da outra “por brincadeira”; a outra, em resposta, riscando a folha inteira, desproporcional, cruel, para mostrar que pode.

A crueldade é nossa primeira diversão inocente.

E em Ceres não há espaço para essa impunidade.

Mãe Ceres eliminou isso dos filhos: a ideia de que ferir é um jogo, de que brincar com a dor do outro é humano.

Porque o mundo está, sempre esteve e sempre estará em guerra — e a paz, afinal, é só um acidente.

Mãe Ceres, que nos alimenta, que nos educa e nos devora.

Cidade de Ceres — O Útero de Chumbo

Espaço minimalista interior
Mãe Ceres não quer fé. Quer filhos.

O que determina a força de uma nação não é sua economia, nem o que ela produz.

Esses fatores não moldam caráter.

Evolução é a palavra.

Se um câncer evolui, Ceres é a cura que se levanta.

O que faz uma economia indestrutível é a ideologia.

Ceres abraçou o Ceresianismo — todos iguais, todos na mesma direção: o progresso.

Mãe Ceres aboliu religiões, superstições e liberdades em nome de seu povo.

A liberdade é inimiga: essa sensação enganosa de poder, alimentada por desejos imediatos de mudança, atrapalha quem está cem anos à frente de nações com pensamentos pequenos.

Em troca da liberdade, Ceres oferece algo mais raro: sobrevivência.

O mundo está em guerra constante.

A paz é apenas um acidente.

Ao cidadão de Ceres, é garantido o princípio básico: lar, alimento, casa, educação, lazer, trabalho, saúde, e uma velhice digna.

Mãe Ceres venceu todos os discursos vazios de deuses, profetas, messias, libertadores, heróis e vilões.

Ela não promete. Ela cumpre.

No núcleo zero está Pietà, a Cidade das Mães.

Ali, toda mulher grávida é acolhida para dar à luz e criar seu filho até os dez anos, sob a doutrina da Mãe.

Abortar é proibido — mesmo em casos de violência.

Mas existe escolha: a mulher pode voltar ao trabalho ou se dedicar à criação.

As que perderam seus filhos se tornam mães de aluguel, criando os filhos de outras como seus.

O núcleo 1 abriga jovens de 10 a 20 anos.

Eles vivem em internatos chamados Colégios Militares, onde são moldados para servir à engrenagem: economia, agricultura, engenharia, astronomia, arquitetura, administração.

Ceres não produz apenas para vender.

Ela produz para sustentar sua ideologia.

Ceres é a cidade neutra do continente.

Toda a riqueza do mundo passa por seus trilhos blindados, que carregam metais, pedras preciosas, medicamentos, tecnologias, armamentos, insumos agrícolas, alimentos secos e molhados.

As contas bancárias são anônimas, mas mais confiáveis que a palavra de um homem.

Na velhice, cada cidadão retorna ao útero de chumbo: um lar para morrer com dignidade, acompanhado, sem abandono.

Curiosamente, as áreas mais disputadas entre homens e mulheres são as vagas de manutenção e docência nos colégios — não por status, mas para estarem perto de seus filhos.

Porque até nas brechas do sistema, Mãe Ceres é cruel e infalível.

Não se trata de acreditar em Mãe Ceres.

Ela existe.

Ela fez o cosmo humano tremer.

E em Ceres, duas certezas são absolutas:

O chão.

E Mãe Ceres.

Mãe Ceres, que alimenta.

Que educa.

E devora.

Fim do Capítulo II
Capítulo III

Flagball

O Locutor
— Senhoras e senhores de todas as cidades-vale, sejam bem-vindos à arena central de Ceres. Esta noite, o Flagball não é apenas esporte — é devoção, disciplina, guerra com elegância. De um lado, a nossa seleção dourada de Ceres. Do outro, os desordeiros de Arcádia, que ousam nos desafiar em nossa própria casa. As arquibancadas estão lotadas. Ninguém fica de fora quando a Mãe Ceres nos chama para defender a honra que só Ela pode conceder...

A transmissão invade um pequeno alojamento cinzento no internato central. Luz fraca, cama bem-feita, estantes alinhadas. O rádio, antigo mas robusto, vibra no parapeito da janela. Encostado na cadeira de rodas, pernas imóveis, mas postura relaxada, Daime sorri torto ao ouvir a solenidade do locutor. Um cigarro apagado pendurado no canto da boca, ele balança a cabeça e murmura sozinho:

Daime
— Ah, vai tomar no cu com essa merda de “honra concedida”... Quero ver quem vai sair cuspindo sangue hoje. Vai, Theo, mostra pra esse bando de bunda-mole por que eu ainda aposto em você, porra...
Resmungando, sarcástico.
Espaço minimalista interior
Flagball - Esporte com elegância.

Com um estalo de dedos, aumenta um pouco o volume e apoia os cotovelos no braço da cadeira, atento, mas sem perder o ar de sadismo divertido.

O campo oval brilha sob os grandes refletores; um mar de uniformes negros com detalhes dourados enche as arquibancadas. Os cidadãos perfilados, em silêncio quase religioso, aguardam a entrada dos jogadores.

Um coro de vozes preenche a arena, cantando em uníssono o hino de Ceres, enquanto a bandeira tremula no topo do mastro central: Mãe Ceres que nos alimenta, nos educa e nos devora... Mãe Ceres que nos alimenta, nos educa e nos devora...

Os jogadores da seleção de Ceres marcham para o centro do campo, um a um, perfilando-se em fila dupla, de costas uns para os outros.

No centro, Theo, camisa 8, com semblante calmo, porém duro. À sua direita, Dark, camisa 9, olhar de predador, sorriso torto no rosto. À esquerda, Gene, camisa 5, inquieto, ajustando o capacete com mãos trêmulas. Atrás deles, Cors (3), sobrancelhas franzidas, punhos cerrados. Por último, Vanks, o goleiro (1), firme como uma muralha, embora os olhos frios disparem setas em direção a Theo.

Todos erguem o braço esquerdo sobre a cabeça, palma aberta, dedos fechados na vertical. A multidão repete o gesto, num mar perfeitamente coordenado.

Por um instante, só o som dos tambores dos cidadãos de Ceres e a respiração ofegante ecoam no estádio.

No centro da tribuna de honra, Mãe Ceres observa — uma figura imponente, envolta em véus negros, com semblante impossível de decifrar.

Quando o árbitro assinala para os times se posicionarem, uma tensão elétrica percorre a equipe de Ceres.

Diálogo dos jogadores (baixinho, durante a formação inicial):

Dark (9):
— Não encosta em mim, verme. Fica no teu canto e não atrapalha.
Sorriso cruel para Theo.
— Eu adoro ver você tentando parecer um líder. Tão... patético.
Theo (8)
— Cala a boca e joga. Não preciso que você goste de mim. Preciso que marque direito. Ou vai entregar o jogo pra Arcádia também?
Frio, sem encarar Dark.
Dark (9):
— Talvez eu entregue só pra ver a sua cara de fracasso.
Rindo baixo, venenoso.
Cors (3):
— Liderzinho ridículo... quem deveria comandar isso aqui sou eu.
Resmungando enquanto ajusta as ombreiras.
Theo (8)
— No dia que aprender a controlar seu temperamento, talvez. Até lá... segue minhas ordens.
Seco, para Cors.
Gene (5)
— Eles... eles tão olhando pra gente lá da tribuna. A Mãe tá... assistindo.
Sussurrando e nervoso.
Theo (8)
— Sempre está. Nunca se esqueça disso.
Finalmente erguendo o olhar para a tribuna.
Vanks (1):
— Você adora falar como se fosse filho preferido dela, não é? Não passa de mais um peão, igual a gente.
Atrás e ríspido.
Theo:
— Talvez. Mas sou o peão que vai ganhar o jogo pra Ela.
Firme, ainda olhando pra tribuna.

De volta ao alojamento, Daime dá uma gargalhada seca, ouvindo a multidão ecoar pela transmissão:

MÃE CERES QUE NOS ALIMENTA, NOS EDUCA E NOS DEVORA!

Ele bate com a palma na cadeira e cospe no chão ao lado, rindo sozinho:

Daime:
— Isso, porra. Vai lá, Theo... mete a porrada nesses filhos da puta e prova pra essa Mãe que você é o único filho que ainda vale a pena."
* * *

O apito inicial ecoa. Os jogadores se lançam para frente como soldados numa batalha. A guerra com elegância começa.

O apito soou estridente no campo, encerrando o primeiro tempo. O placar agora brilhava no alto da arena: Ceres 3 – Arcádia 3.

A multidão aplaudia em uníssono, repetindo o mantra como um trovão:

MÃE CERES QUE NOS ALIMENTA, NOS EDUCA E NOS DEVORA!

Os jogadores de Ceres deixaram o campo em fila, ainda com o braço esquerdo erguido no gesto ritual, mas as expressões endurecidas não enganavam ninguém. O empate fora conquistado à força, mas as feridas internas ainda estavam abertas.

No vestiário subterrâneo, a luz fria das lâmpadas não escondia o cheiro metálico de suor e raiva. As portas se fecharam com estrondo.

Dark foi o primeiro a soltar a língua, empurrando Theo com o ombro ao passar:

Dark:
— Esse empate é seu fracasso, liderzinho de merda.
Venenoso, cuspindo as palavras.

Theo girou, seu olhar faiscando. Sem pensar, agarrou Dark pelo colarinho e o empurrou contra o armário, o barulho ecoando pelo vestiário. Cors e Vanks avançaram, prontos para separar os dois — ou para entrar na briga.

O apito soou estridente no campo, encerrando o primeiro tempo. O placar agora brilhava no alto da arena: Ceres 3 – Arcádia 3.

Cors:
— CHEGA! Vocês vão se matar aqui dentro? É isso? Querem dar o jogo pra Arcádia?!
Rosnando.
Vanks:
— Um líder que perde a cabeça é só mais um moleque jogando.
Frio, com desprezo para Theo.

Theo soltou Dark, mas ficou ali, respirando pesado, o maxilar trincado. Dark, mesmo ainda encostado no armário, sorria com aquela crueldade habitual.

Antes que a situação explodisse de vez, o técnico entrou no vestiário batendo palmas altas, o apito pendurado no pescoço:

Técnico:
— CALA A BOCA TODO MUNDO! Sentem. Agora.
Curto e grosso.

A equipe se sentou nos bancos, relutante, cada um encarando o chão, os próprios punhos ou o vazio. O técnico começou a falar sobre marcação, táticas, disciplina... mas poucos ouviam de verdade. A raiva ainda fervia sob a pele.

Quando o técnico finalmente saiu para organizar a volta ao campo, Theo ficou em pé diante deles, sozinho. O silêncio era denso. Ele olhou para cada um, os olhos negros cheios de algo difícil de definir — ódio, talvez... mas também ambição.

Theo:
— Vocês me odeiam. Eu sei. E eu odeio vocês também. Cada um. Porque são arrogantes, mimados, cabeça-quente. São um bando de inúteis que só sabem reclamar.
Voz baixa no início, mas ganhando força.

Alguns se mexeram, inquietos. Dark arqueou uma sobrancelha, curioso.

Theo:
— Mas sabem o que eu odeio mais? Perder. E vocês também. Então podem me odiar o quanto quiserem, podem me chamar de patético, podem sonhar com o dia em que vão tomar o meu lugar. Mas hoje... vocês vão jogar. E vão ganhar. Porque se perderem... não é só a mim que vão desonrar. É a Mãe.
Continuando, com um meio sorriso amargo.

Gene ergueu os olhos, Cors bufou, e até Vanks pareceu conter um resmungo. Dark olhou para Theo e riu, mas dessa vez não disse nada — apenas se levantou e estendeu a mão para ajustar as fitas do uniforme.

Theo:
— Entendam isso: não precisamos gostar uns dos outros pra vencer. Só precisamos vencer.
Concluiu, duro, encarando-os.

O apito ecoou de novo lá fora, chamando os jogadores para o segundo tempo.

Um a um, eles se ergueram e caminharam para a porta. As tensões não sumiram, mas estavam moldadas agora, afiadas como uma lâmina.

Naquele momento, os filhos de Ceres não se suportavam... mas amavam demais a vitória para desistir dela.

O segundo tempo foi um massacre.

A seleção de Ceres voltou para o campo como uma fera solta, um bando de predadores enjaulados que finalmente encontraram a presa.

Cada jogada era mais agressiva que a anterior, os cidadãos nas arquibancadas gritavam o hino da Mãe Ceres sem parar, um mar de braços erguidos em devoção enquanto os adversários de Arcádia desmoronavam, um a um, no gramado.

O placar disparou: 4 a 3. 5 a 3. 6 a 3.

Humilhação completa.

E Dark estava no centro do caos.

Camisa 9, um demônio dourado. Rápido, impiedoso, cruel.

A cada gol, ele olhava para as arquibancadas e abria os braços, bebendo os aplausos como um viciado em dor.

Em um lance duro na lateral, trombou com um dos jogadores de Arcádia, que já mal se aguentava em pé. Dark caiu, mas riu ao se levantar, encarando o rival:

Dark:
— Vai pra casa, verme... a Mãe não dá esmola pros filhos bastardos.
Venenoso, para o rival, alto o bastante para todos ouvirem.

O jogador de Arcádia se enfureceu. Empurrou Dark com força no peito, quase derrubando-o novamente.

Dark abriu um sorriso, já preparando o soco... mas antes que pudesse reagir, Theo já estava ali.

Braço firme no ombro de Dark, segurando-o no lugar:

Theo:
— Não. Não hoje.

Outros de Ceres se meteram, separando os dois times antes que a situação explodisse de vez.

Dark ficou imóvel por um segundo, o sorriso ainda estampado no rosto.

Mas quando sentiu a mão de Theo em si, virou o rosto, olhando-o com puro veneno:

Dark:
— Não encosta em mim. Nunca.
Áspero, rosnando entre dentes, só pra ele.

Theo só o encarou, sem soltar, até Dark se acalmar por vontade própria.

O árbitro, pressionado pelo ritual do cidadão de Ceres, não deu punição para nenhum deles.

Quando o jogo recomeçou, o clima continuava pesado.

Theo e Dark voltaram a seus lugares no campo.

Inimigos naturais, cada um odiando tudo o que o outro representava:

Um era puro fígado — instinto, raiva, veneno.

O outro era cérebro — cálculo, disciplina, estratégia.

Ódio um pelo outro. Ódio por Arcádia. Ódio por qualquer um que ousasse manchar o nome da Mãe.

E com isso bastava.

O jogo terminou 6 a 3 para Ceres.

Humilhação absoluta.

O estádio inteiro em transe, gritando em coro, os braços erguidos para o céu:

MÃE CERES QUE NOS ALIMENTA, NOS EDUCA E NOS DEVORA!

MÃE CERES QUE NOS ALIMENTA, NOS EDUCA E NOS DEVORA!

Os jogadores de Ceres saíram do campo sem se olharem, mas com um pacto silencioso:

Não precisavam se amar.

Só precisavam vencer.

E venceram.

A partida já estava ganha, mas eles queriam mais.

Ceres massacrou Arcádia sem piedade, como sempre, como era esperado. Seus filhos não sabiam mais jogar por paixão — jogavam por instinto, por disciplina... por fome.

Mãe Ceres os havia moldado assim.

Troca justa: sentimentos por chumbo, liberdade por obediência.

Eles afundaram felizes nessa troca, incapazes de conceber um mundo sem sua Mãe.

No alto da tribuna, Ela observava.

Mãe Ceres, sempre de branco imaculado.

O vestido longo, a saia tão vasta que ocultava os pés e fazia parecer que flutuava.

As luvas finas, translúcidas, repousavam sobre o parapeito como pétalas de vidro.

No rosto, a coroa de cristal que a circundava completamente, descia até o queixo — e no centro, em vez de um rosto humano, apenas a redoma ovalada, escura e polida como um espelho negro.

Um espelho que devolve a imagem de quem ousasse olhá-la diretamente.

Quem via a Mãe, via a si mesmo.

E odiava ou amava o que via.

Ela inclinava a cabeça, sempre elegante, sempre silenciosa, apreciando o espetáculo abaixo:

Seus brinquedos favoritos, seus cães mais fiéis, Theo e Dark.

O cérebro e o fígado.

A razão e a violência.

Cada um odiando o outro com uma devoção que só Ela poderia inspirar.

E ainda assim incapazes de parar.

Pedindo mais carne.

Querendo provar do sangue um do outro, mesmo quando devoravam o inimigo.

Para Ela, era divertido.

Porque Ela sabia: todos eles eram só isso.

Brinquedos divertidos.

Soldados moldados para guerra, para dor, para submissão.

Não havia deuses imaginários em Ceres.

Havia apenas Ela.

A Mãe que nunca deixou seus filhos sem resposta, sem alimento, sem propósito.

Liberdade?

Liberdade era a inimiga.

E eles já haviam aprendido que o mundo está constantemente em guerra; a paz é apenas um acidente.

Os olhos (ou aquilo que Ela tinha em vez de olhos) seguiram Theo quando ele segurou Dark pelo ombro, no meio da confusão, impedindo-o de socar o adversário.

Viu como Dark odiou aquele toque.

Como Theo odiou ter que fazê-lo.

Como ambos se calaram, porque sabiam que Ela estava olhando.

E o estádio inteiro, cidadãos de Ceres, perfilou-se e ergueu os braços ao céu, em adoração, cantando o hino que ecoava na estrutura colossal:

MÃE CERES QUE NOS ALIMENTA, NOS EDUCA E NOS DEVORA!

MÃE CERES QUE NOS ALIMENTA, NOS EDUCA E NOS DEVORA!

Ela permaneceu imóvel, refletindo apenas os rostos deformados de desejo e ódio que a olhavam.

E no fundo de sua voz silenciosa, pensou:

Meus filhos. Meus brinquedos. Tão previsíveis. Tão deliciosamente previsíveis.

E abaixo, no campo, Theo e Dark jogavam não por glória.

Jogavam porque Ela não deixava alternativa.

E nada, ninguém, jamais escaparia do colo da Mãe.

-->
Fim do Capítulo III
Capítulo IV

Em Breve...